Camponesa Sentada, George Seurat (1883)
Há tempos, quando fui à terra dos meus pais, encontrei a Maria*, uma vizinha lá da aldeia, que deve ter mais ou menos a minha idade. Ela já está casada há muitos anos e não tem filhos, o que levanta sempre a suspeita de infertilidade. Nunca tinha abordado o assunto com ela. Sempre achei que, por conhecer a minha história, ela poderia vir falar comigo quando o quisesse. Nunca o fez.
Quando a encontrei, ela ia a caminho do campo e parou para fazer umas festas ao meu filho. Deu-me um aperto no coração. Ganhei um bocadinho de coragem e perguntei-lhe se ela e o marido nunca pensaram fazer tratamentos. Ela olhou para mim e, com um sorriso triste, disse «Claro que sim! Ainda pensamos nisso. O meu cunhado Manel até ofereceu-se para nos emprestar dinheiro, mas não quisemos. Temos o gado para cuidar e quem olha por isto quando estamos fora? Deus assim não quis.» Tive que me controlar para não me desmanchar à frente dela. Apetecia-me dizer-lhe que não deitasse as culpas todas para Deus, que os homens, também tinham a sua dose. Aqueles que não se lembram que há tantos Marias por este país fora, sem informação, sem apoios, sem condições financeiras para sequer procurar ajuda. Mulheres que aceitam assim a sua condição como um desígnio de Deus, quase sem questionarem se seriam filhas do mesmo Deus que dá algumas oportunidades a quem tem uma condição financeira mais favorável ou um bocadinho de sorte de viver num meio com acesso a mais informação.
Como eu gostaria de ser uma espécie de Robin Hood e arrancar com aquela mulher para a cidade para que tivesse, pelo menos, uma oportunidade para conseguir ser mãe. Mas também não seria justo criar ilusões numa mulher que se resignara ao seu "basta!", não por não aguentar as amarguras dos tratamentos, mas por aceitar as suas limitações no acesso a esses mesmos tratamentos.
* nome fictício
Quando a encontrei, ela ia a caminho do campo e parou para fazer umas festas ao meu filho. Deu-me um aperto no coração. Ganhei um bocadinho de coragem e perguntei-lhe se ela e o marido nunca pensaram fazer tratamentos. Ela olhou para mim e, com um sorriso triste, disse «Claro que sim! Ainda pensamos nisso. O meu cunhado Manel até ofereceu-se para nos emprestar dinheiro, mas não quisemos. Temos o gado para cuidar e quem olha por isto quando estamos fora? Deus assim não quis.» Tive que me controlar para não me desmanchar à frente dela. Apetecia-me dizer-lhe que não deitasse as culpas todas para Deus, que os homens, também tinham a sua dose. Aqueles que não se lembram que há tantos Marias por este país fora, sem informação, sem apoios, sem condições financeiras para sequer procurar ajuda. Mulheres que aceitam assim a sua condição como um desígnio de Deus, quase sem questionarem se seriam filhas do mesmo Deus que dá algumas oportunidades a quem tem uma condição financeira mais favorável ou um bocadinho de sorte de viver num meio com acesso a mais informação.
Como eu gostaria de ser uma espécie de Robin Hood e arrancar com aquela mulher para a cidade para que tivesse, pelo menos, uma oportunidade para conseguir ser mãe. Mas também não seria justo criar ilusões numa mulher que se resignara ao seu "basta!", não por não aguentar as amarguras dos tratamentos, mas por aceitar as suas limitações no acesso a esses mesmos tratamentos.
* nome fictício





