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Wednesday, April 8, 2009

Outras Vozes


Camponesa Sentada, George Seurat (1883)

Há tempos, quando fui à terra dos meus pais, encontrei a Maria*, uma vizinha lá da aldeia, que deve ter mais ou menos a minha idade. Ela já está casada há muitos anos e não tem filhos, o que levanta sempre a suspeita de infertilidade. Nunca tinha abordado o assunto com ela. Sempre achei que, por conhecer a minha história, ela poderia vir falar comigo quando o quisesse. Nunca o fez.

Quando a encontrei, ela ia a caminho do campo e parou para fazer umas festas ao meu filho. Deu-me um aperto no coração. Ganhei um bocadinho de coragem e perguntei-lhe se ela e o marido nunca pensaram fazer tratamentos. Ela olhou para mim e, com um sorriso triste, disse «Claro que sim! Ainda pensamos nisso. O meu cunhado Manel até ofereceu-se para nos emprestar dinheiro, mas não quisemos. Temos o gado para cuidar e quem olha por isto quando estamos fora? Deus assim não quis.» Tive que me controlar para não me desmanchar à frente dela. Apetecia-me dizer-lhe que não deitasse as culpas todas para Deus, que os homens, também tinham a sua dose. Aqueles que não se lembram que há tantos Marias por este país fora, sem informação, sem apoios, sem condições financeiras para sequer procurar ajuda. Mulheres que aceitam assim a sua condição como um desígnio de Deus, quase sem questionarem se seriam filhas do mesmo Deus que dá algumas oportunidades a quem tem uma condição financeira mais favorável ou um bocadinho de sorte de viver num meio com acesso a mais informação.

Como eu gostaria de ser uma espécie de Robin Hood e arrancar com aquela mulher para a cidade para que tivesse, pelo menos, uma oportunidade para conseguir ser mãe. Mas também não seria justo criar ilusões numa mulher que se resignara ao seu "basta!", não por não aguentar as amarguras dos tratamentos, mas por aceitar as suas limitações no acesso a esses mesmos tratamentos.

* nome fictício

Tuesday, January 6, 2009

Está frio lá fora...


...mas eu não me queixo. Traz-me boas recordações do inverno no Canadá. Aliás, isto não é frio para os canadianos. Lembro-me de Invernos em Toronto em que a temperatura descia aos -30ºC, mas mesmo isso não nos impedia de brincar lá fora nos recreios da escola. Só faltava a neve branquinha para completar o cenário.

Hoje o telefone tocou. A voz soava-me conhecida mas não a conseguia associar a um nome. Veio a notícia: ela perdera o bebé depois duma curta gravidez. Sinto um aperto no coração. A FIV que fizera antes do Natal tinha-lhe trazido uma enorme alegria e agora fica o vazio. Sinto um arrepio, mas não de frio.

Sunday, January 4, 2009

A teoria da (des)organização

Adorei ler um artigo publicado no NYTimes e amavelmente traduzido pelo Marco no nosso fórum. Quando o li fez-me lembrar a minha própria infância quando ansiava tanto por um bocadinho de mistério para subverter uma vida tão bem organizada, graças aos pais maravilhosos que tenho. Quantas vezes não fantasiava com a ideia se teria sido adoptado. Estava mais do que visto que não era o caso porque sou a cara chapada do meu pai. Mas a ideia de ter umas origens misteriosas seduzia-me e invadia frequentemente o meu imaginário infantil. Inventava mil e uma histórias nesta cabecinha, muitas delas inspiradas nos contos infantis que o meu pai me lia antes de me deitar.

A minha grande amiga de infância e eu éramos inseparáveis. O nosso maior sonho era sermos irmãs. Para isto também contribuía o facto de ambas sermos filhas únicas. Na nossa ingenuidade infantil, um dia resolvemos que tínhamos que ser mesmo irmãs e espalhamos uma história pelo nosso bairro que um dos meus pais teria tido um caso com um dos pais dela e assim uma de nós era fruto do pecado. Grande bronca que esta história deu, como podem calcular, mas na altura não conseguíamos entender porque é que os adultos se zangaram tanto connosco. Apenas queríamos ser irmãs; apenas queríamos desorganizar um bocadinho as nossas vidas tão bem organizadas pelos nossos pais.

Ora, eu acho que isto tem muito a ver também com o facto de eu detestar organização e rotina. Odeio ver tudo arrumado no seu cantinho. Basta ver a minha casa ou o meu gabinete na escola para perceberem que a desorganização reina por onde eu passo. Até o destino me ajudou nesse sentido ao desorganizar o meu sonho de maternidade. E detesto quando as coisas ou as pessoas são previsíveis. Acaba com o prazer de tentar adivinhar o que vem a seguir.

Voltando ao início, as minhas origens não estiveram envoltas no mistério que eu tanto desejava para apimentar um bocadinho a minha vida. Talvez por isso agrada-me poder trazer um bocadinho de cor para as origens do meu filho quando lhe falo da forma como foi gerado, diferente de todos os seus amiguinhos. Eu acho que ele "herdou" esse meu gosto pela desorganização. Ela adora aquela história de encantar sobre o ovinho da mamã e a semente do papá que se juntaram num frasquinho com a ajuda da "varinha mágica" da médica. Ele gosta de ser diferente dos outros. Mas eu acho que o que ele gosta mesmo é de saber que as coisas também se organizam no meio da desorganização.

A língua de Camões...


...não é o meu forte, por isso uso apenas a minha língua mãe neste cantinho. Oferece-me a segurança necessária para me deixar navegar livremente pelos meus pensamentos. Mas como sei que há muitas pessoas portuguesas que me visitam e muito timidamente se vão embora sem deixar um comentário, resolvi deixar de lado as minhas inseguranças com o dito "bom português" e aqui vou eu iniciar novas navegações na língua que é dos meus pais e também minha. Peço que perdoem então os atropelos que vou dando em tão nobre língua.

Às minhas meninas e aos meus meninos (sim, porque também os há) da minha família APFertilidade que eu tanto adoro, deixo-vos o convite de entrarem porta adentro neste meu cantinho que também será vosso.

Como sempre termino os meus posts no nosso outro cantinho...

Beijinhos,
Anna

To my English-speaking readers,
I've decided make this into a bilingual blog from now on out of respect for so many Portuguese readers that make there way here from my association. Multiculturalism - here we go! Thanks for understanding.